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Neve fora de época no Hemisfério Norte

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Inverno normal, à esquerda. Inverno atípico, à direita.

7 min de leitura

Nas últimas semanas dois grupos de notícias aparentemente contraditórias circularam amplamente: de um lado, cientistas preocupados com as temperaturas relativamente elevadas para o Oceano Ártico e a retração da calota de gelo polar; de outro, notícias de nevascas fora de época no Japão, Suécia, Bélgica, Irã, etc, e de frio intenso no Canadá, nordeste da China e na Rússia. Aparentemente, há algo errado com as notícias, não!? Como pode estar mais quente do que o habitual no Polo Norte e, ainda assim, ocorrerem nevascas antes do esperado e ondas de frio no Hemisfério Norte? 

 

Ainda era 10 de novembro quando Estocolmo, na Suécia, amanheceu sob 39cm de neve, algo que jamais havia sido registrado com tamanha intensidade em novembro, desde o início do monitoramento meteorológico na região, em 1905. Há mais de 50 anos não nevava durante novembro em Tóquio, até o dia 25/11/2016, quando a cidade amanheceu coberta por uma fina camada de 2cm de neve e permaneceu nevando ao longo do dia. Concomitantemente, a NASA e a NOAA emitiram notificações alertando para temperaturas até 20°C acima da normal Climatológica no Oceano Ártico, havendo degelo e retração da calota polar quando ela deveria aumentar conforme o inverno se aproxima. Ainda de forma alarmante, desta vez a calota de gelo oceânico ao redor da Antártica está se retraindo mais rapidamente do que o esperado.

 

Neve em Tóquio na última sexta-feira, 25/11/2016.

 

Para ilustrar o que ocorre com as calotas de gelo polar e o quão grave é a situação presente, serão apresentados dois gráficos obtidos com dados da NSIDC (National Snow and Ice Data Center). O primeiro deles, abaixo, mostra a cobertura total de gelo oceânico no planeta, somando o gelo Ártico e Antártico. Cada linha colorida apresenta um ano entre 1978 e 2015 e a extensão do gelo oceânico total, mês a mês, naquele dado ano. A área cinza representa dois desvios-padrão em relação à média de extensão do gelo em todos estes anos: ela mostra que qualquer valor dentro da área sombreada pode ser entendido como "típico", "normal". A linha vermelha solitária é a extensão das calotas de gelo ao longo do ano de 2016.

 

Em 2016 há muito menos gelo no mar ao redor dos pólos do que o habitual.

 

Então, o que se observa é uma retração global das calotas de gelo oceânicas sem precedentes na história recente. Para entendermos as nevascas recentes e as ondas de frio na Ásia, Europa e América do Norte, é preciso investigar a respeito da extensão das calotas de gelo do Ártico. O gráfico a seguir apresenta a extensão do gelo Ártico, mês a mês, mostrando a climatologia entre 1989 e 2010 como a linha grossa preta, enquanto a área cinza representa dois desvios-padrão desta climatologia. As linha coloridas se referem a anos individuais entre 1978 e 1989, anteriores à média climatológica mais recente (que, em geral, já mostra menor extensão de gelo do que nos anos anteriores). A linha vermelha solitária representa a extensão de gelo Ártico no ano de 2016.

 

Durante todo o ano de 2016 o gelo no Ártico esteve muito abaixo da média climatológica.

 

O que estes gráficos mostram é que a sistemática elevação da temperatura terrestre tende a causar diminuições consideráveis das calotas de gelo sobre o mar ao redor dos polos. Isso, em conjunto com as medições de temperatura no Ártico, que indicam temperaturas até 20°C acima da normal climatológica, mostra claramente que há menos ar frio sobre o Polo Norte do que o que costuma haver. Num inverno típico, há uma grande região mais ou menos circular de ar muito denso e frio ao redor do Polo Norte. Este ar se mantém naquela área, entre outros motivos, porque há muito gelo na região. Quando a cobertura de gelo ao redor do Polo Norte diminui, indicando ar mais quente sobre a região, este ar frio e denso escoa para as "bordas" da área aproximadamente circular, formando "círculos" menores de ar denso e frio longe do Polo Norte, enquanto o ar mais quente do sul escoa para a região polar, onde esfria lentamente. 

 

Chamamos esta região de ar denso e frio ao redor dos polos de Vórtice Polar. Num inverno típico ele é bem determinado e intenso. Conforme a calota polar do Ártico se retrai e a temperatura próximo ao Polo Norte aumenta, o Vórtice Polar perde intensidade e o ar frio escapa para sul, geralmente estacionando sobre a Sibéria Central, norte da Europa e leste da América do Norte, deixando o inverno nestas regiões mais frio e mais duradouro, com neve abundante no final de março e início de abril. 

 

A imagem a seguir mostra a posição típica do Vórtice Polar durante um inverno comum (a área mais escura no globo da esquerda) e o que ocorre quando o Vórtice Polar enfraquece e o ar denso e frio, mais escuro na imagem, se concentra em pontos da Ásia, Europa e América do Norte. 

 

 

Inverno normal, à esquerda. Inverno atípico, à direita.

 

Nevascas abundantes e antecipadas e baixa extensão da calota polar no Ártico indicam que provavelmente este será um inverno mais longo e rigoroso no Hemisfério Norte. E chega a ser irônico notar que isso ocorre justamente como consequência da elevação das temperaturas do planeta, que levam à retração das calotas polares. 

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