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Interação do Atlântico Sul com os sistemas meteorológicos no BR

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9 min de leitura

Interação do Atlântico Sul com os sistemas meteorológicos no Brasil

 

Os oceanos cobrem, aproximadamente, 70% da superfície terrestre e devido a sua alta capacidade térmica desempenham um papel fundamental na variabilidade climática do planeta, onde a troca de energia oceano-atmosfera e as circulações oceânicas são determinantes para as condições de tempo e de clima (CAVALCANTI, 2006).

 

Diferente do que muitas pessoas imaginam, não se pode levar em consideração apenas a temperatura da superfície do mar (TSM) do Pacífico ao analisar a distribuição de chuvas no Brasil. Devido a sua extensão continental, o Brasil também é afetado por variações da TSM de diferentes oceanos. Desde os impactos do aquecimento ou resfriamento do Oceano Pacífico em episódios de El Niño ou La Niña, afetando diretamente o padrão de chuvas sobre os principais reservatórios, até a influência do Atlântico tropical na posição da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), afetando diretamente a qualidade dos ventos no Nordeste brasileiro.

 

De forma análoga, variações na TSM do Atlântico Sul são capazes de alterar as condições de tempo nas porções sul e sudeste da América do Sul (REBOITA et al., 2009), principalmente devido à existência de três regiões ciclogenéticas (área favorável a formação de ciclones, indicada por RC na Figura 1), localizadas no sul da Argentina, na costa do Uruguai e na costa Sul/Sudeste do Brasil, respectivamente.

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Densidade de ciclogêneses (10-4 km-2) no verão entre 1990 a 1999, que se iniciaram com vorticidade menor ou igual a -1,5x10-5s-1. Adaptado de Reboita et al. (2009).

 

As regiões ciclogenéticas destacadas na Figura 1, são importantes para a manutenção do período chuvoso no Sul e em parte do Sudeste brasileiro, no qual sistemas frontais e ciclones são os principais responsáveis pelo padrão de precipitação no inverno austral.

 

 

Atlântico Sudoeste

 

O gradiente de TSM na região do Atlântico Sudoeste, indicado em cinza na imagem de satélite da Figura 2, é importante para a formação e avanço de frentes frias. Climatologicamente, são observadas águas mais frias (quentes) na porção sul (norte) do Atlântico Sudoeste e quanto mais intenso for este gradiente (diferença entre águas mais frias e mais aquecidas), maior será a energia disponível para a formação de sistemas frontais, atuando de forma positiva para o preenchimento dos reservatórios.

 

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Imagem de satélite da AS com área delimitada em cinza destacando o Atlântico Sudoeste.

 

             As correntes oceânicas, que apresentam diferentes características físicas (temperatura e salinidade), são capazes de afetar as condições dinâmicas e termodinâmicas da atmosfera (PEZZI et al., 2006). Próximo a costa sul do Brasil, ocorre um grande contraste termal entre as massas d’água da Corrente do Brasil (águas aquecidas) e das Maldivas (águas frias), denominada Confluência Brasil-Malvinas (CBM).

 

Esta região foi estudada por Pezzi et al. (2005), no qual observaram que na ausência de frentes frias e ciclones na região, a CBM é capaz de alterar as condições da instabilidade da camada limite atmosférica (Figura 3) nas regiões adjacentes. As águas mais aquecidas, destacadas em vermelho na Figura 3, são as principais responsáveis por alterar a intensidade da magnitude do vento (PEZZI et al., 2005), impactando na geração hídrica principalmente nos meses de inverno nas bacias do Uruguai, Paranapanema e parte do Paraná.

 

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 Figura 3: Temperatura da superfície do mar (cores) e vetores de vento no dia 2 de novembro de 2004. Extraído de Pezzi et al. (2005).

 

Alguns estudos que avaliaram o impacto da TSM do oceano Atlântico Sudoeste no padrão de precipitação no Sul do Brasil e no Uruguai, destacaram que anomalias positivas (negativas) de TSM estão associadas com anomalias negativas (positivas) de precipitação nestas regiões, principalmente nos meses de abril a junho, período em que as condições de TSM do Atlântico Sudoeste contribuem mais significativamente em comparação com outros tipos de oscilações, como o próprio El Niño (DIAZ et al., 1998).

 

A Alta Subtropical do Atlântico Sul (ASAS), um sistema de alta pressão semipermanente no Atlântico Sul, localizada em torno de 30 graus de latitude, influencia as condições de tempo e clima da AS devido ao seu padrão de circulação atmosférico. No inverno, a ASAS está mais intensa e próxima da América do Sul, podendo interferir na entrada e desenvolvimento de sistemas frontais no Sul e Sudeste. Já no verão, A ASAS se afasta da América do Sul e sua circulação é importante para o transporte de umidade do oceano, dando condições para a manutenção da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), um dos principais sistemas meteorológicos do período úmido no Centro-Sudeste brasileiro (BASTOS e FERREIRA, 2000).

 

 

Próximos meses

 

O mês de fevereiro foi marcado pelo aquecimento da porção sul do Atlântico (costa do extremo Sul da América do Sul) e esse aquecimento foi responsável por enfraquecer o gradiente de TSM que favorecia o avanço de frentes frias no Sul do país. Por outro lado, as águas próximas à costa do Sudeste brasileiro, que sofreram redução da TSM, favoreceram a formação de ZCAS.

 

Para o mês de março, a tendência é que este padrão de TSM se mantenha, favorecendo a convergência de umidade entre o Sudeste e o Nordeste brasileiro, mas com aumento de precipitação no Sul do Brasil em relação ao mês de fevereiro.

 

O dipolo do Atlântico Central se mantém na fase positiva, ou seja, a ZCIT está posicionada ao norte de sua posição histórica, mas ainda assim já começa a impactar a produção eólica na costa norte do Nordeste brasileiro, principalmente no estado do Ceará.

 

Autores: Meteorologistas Patrícia Madeira, Rafael Benassi e Vitor Hassan

 

Referências Bibliográficas

 

BARROS, V.; GONZALES, M.; LIEBMANN, B.; CAMILLONI, I. Influence of the South Atlantic convergence zone and SouthAtlantic Sea surface temperature on interannual summerrainfall variability in Southeastern South America. Theoretical and Applied Climatology, v. 67, n. 3, p. 123-133, 2000.

 

BASTOS, C. C.; FERREIRA, N. J. Análise climatológica da alta subtropical do Atlântico Sul. CEP, v. 12220, n. 110, p. 973-990, 2000.

 

CAVALCANTI, I. F. A. Tempo e clima no Brasil. Oficina de textos, 2016.

 

DIAZ, A. F.; STUDZINSKI, C. D.; MECHOSO, C. R. Relationships between precipitation anomalies in Uruguay and southern Brazil and sea surface temperature in the Pacific and Atlantic Oceans. Journal of Climate, v. 11, n. 2, p. 251-271, 1998.

 

HAARSMA, Reindert J. et al. Dominant modes of variability in the South Atlantic: A study with a hierarchy of ocean–atmosphere models. Journal of climate, v. 18, n. 11, p. 1719-1735, 2005.

 

PEZZI, L. P. et al. Ocean‐atmosphere in situ observations at the Brazil‐Malvinas Confluence region. Geophysical Research Letters, v. 32, n. 22, 2005.

 

PEZZI, L.; CALTABIANO, A.; CHALLENOR, P. Satellite observations of the Pacific tropical instability wave characteristics and their interannual variability. International Journal of Remote Sensing, v. 27, n. 8, p.1581-1599,2005.

 

REBOITA, M. S.; DA ROCHA, R. P.; AMBRIZZI, T.; SUGAHARA S.. South Atlantic Ocean Cyclogenesis Climatology Simulated by Regional Climate Model (RegCM3). Climate Dynamics, v. 35, n. 7-8, p. 1331-1347, 2009.

 

ROBERTSON, Andrew W.; MECHOSO, Carlos R. Interannual and interdecadal variability of the South Atlantic convergence zone. Monthly weather review, v. 128, n. 8, p.2947-2957,2000.

 

STERL, A.; HAZELEGER, W. Coupled variability and air-sea interaction in the South Atlantic Ocean. Climate Dynamics, v. 21, n. 7-8, p. 559-571, 2003.

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